Setembro de 2026.
“THE TOUCH OF GOD” não trata a religiosidade como um tema isolado, ela coloca fé, memória familiar, tecnologia, ciência, psicodelia, sofrimento e cultura popular dentro do mesmo campo visual.
O elemento que imediatamente organiza essa composição é o Sagrado Coração, reconhecível pelo coração em chamas, a cruz e a coroa de espinhos. Na tradição católica, esse coração funciona como uma representação visual do sacrifício e da dimensão humana e divina de Cristo. Mas, nessa obra, ele ganha uma dimensão mais íntima: é também uma homenagem às minhas avós, sempre muito católicas e devotas a Jesus Cristo e, portanto, um fragmento de memória familiar.
O bordado cria uma segunda camada de significado, pois o uso do bordado é uma técnica associada ao trabalho manual e à transmissão de conhecimento entre gerações. Isso conversa diretamente com a presença das minhas avós na obra.
Ao mesmo tempo, utilizei o bordado para fazer referência à obra “Criação de Adão”, de Michelangelo,
As escritas em branco são fragmentos do capítulo do Apocalipse na Bíblia, parcialmente coberto, ilegível em vários pontos e misturado a outras informações. Isso é fundamental, pois quem vê a obra reconhece que existe uma mensagem religiosa, mas não consegue necessariamente acessá-la integralmente. A palavra sagrada existe, mas está soterrada pela própria imagem.
Assim como as escritas em stencil, que são fragmentos de um livro sobre psicodélicos.
Ambos os fragmentos de textos criam uma tensão entre revelação e ocultamento, dois sistemas de produção de experiência transcendental lado a lado: a religião (transcendência através da fé) e psicodélicos (transcendência através da alteração da consciência).
Um e o outro são associados à tentativa humana de ultrapassar a experiência cotidiana e acessar algo que parece estar “além” da realidade ordinária (e não precisamos decidir qual deles está certo).
O uso da folha de ouro nessa peça foi pensada desde o início, pois o ouro já transmite a ideia de magnitude e algo sagrado, então ela não funciona aqui apenas como uma escolha estética.
Para finalizar, deixo aqui uma reflexão: não somos formados por uma única crença ou sistema de pensamento. Somos uma sobreposição de coisas que herdamos, questionamos, experimentamos e transformamos.
