Março de 2026.

 

“LA TENTACIÓN” nasceu de um processo que não foi linear, mas acumulativo, quase como um organismo que se formou aos poucos, camada por camada, ao longo do tempo. As primeiras ideias começaram em julho de 2025 como rabiscos e intuições ainda dispersas, e foi se desenvolvendo até a sua finalização, em março de 2026. O resultado final da obra não buscou representar um único tema, mas sim misturar religião, ciência, biologia, fantasia e o digital.

 

O ponto de partida simbólico foi o mito da queda em Gênesis (livro da Bíblia no qual sempre me encantou quando criança, e por conta de uma certa influência das minhas avós). A obra não serve apenas como uma narrativa religiosa, mas como metáfora do surgimento da consciência humana.

 

As figuras humanoides que remetem a Adão e Eva (pintados em acrílica) não aparecem como personagens narrativos tradicionais, mas como presenças recorrentes dentro de um universo autoral que já vinha sendo construído em algumas das minhas obras anteriores como “SELF-love”, “MONO-liso” e “MONO-LEGO®”. Essas figuras não representam apenas indivíduos, elas funcionam como arquétipos pessoais, corpos simbólicos que atravessaram diferentes fases do processo criativo e retornaram aqui carregados de novas camadas de significado.

 

Ao reaparecerem nesta obra, esses corpos passaram a ocupar um lugar mais profundo: o de origem. Eles se tornaram Adão e Eva não no sentido literal, mas no sentido psicológico e existencial, como representações do primeiro momento em que o humano se percebe como humano. Aqui elas aparecem ainda sem suas auras.

 

Há algo muito particular na forma como essas figuras foram construídas. Elas não possuem uma identidade completamente definida, não são retratos, nem personagens específicos. São corpos quase universais, mas ao mesmo tempo íntimos. Essa ambiguidade permite que elas operem como espelhos: não se trata de olhar para Adão e Eva, mas de se reconhecer neles.

 

Na psicologia profunda, especialmente na tradição de Carl Jung, o mito de Adão e Eva pode ser interpretado como o momento em que o ser humano sai do estado de inconsciência natural e entra na consciência reflexiva.

Quando a fruta é consumida, nasce algo novo: o olhar sobre si mesmo. A maçã não representa apenas conhecimento. Ela representa o desejo de ultrapassar limites. Depois da tentação, nunca voltamos a ser quem éramos antes.

 

Ao longo do processo, a obra foi sendo construída através da técnica mista, incorporando diferentes materiais como marcador permanente, grafite, lápis de carvão branco, lápis dermatográfico, corretivo líquido, stencil e folha de ouro. Cada material carregou um papel específico dentro da linguagem da obra. O corretivo, por exemplo, introduziu a ideia de erro e revisão e a folha de ouro trouxe um vestígio do sagrado.

 

As barras de cor aplicadas nas laterais funcionam como um contraponto às formas naturais. Dentro de cada barra de cor do lado esquerdo, foi aplicado em stencil, o nome de cada dia da semana em espanhol (totalizando 7 dias, que foi o período que no livro de Gênesis, Deus criou o mundo). Trechos de alguns versículos de Gênesis também aparecem escritos na tela, em inglês e francês.

 

As ilustrações de frutas e ossos foram retiradas de 2 livros da Sarah Simblet: “Botany for the Artist” e “Anatomie Pour l’Artiste”, e são muito importantes para a linguagem da obra, pois são referências clássicas de ilustração científica aplicada à arte.

 

O processo criativo de “LA TENTACIÓN” foi um processo de sobreposição de linguagens. Pintar, desenhar, escrever, apagar e reaplicar não foram etapas separadas, mas ações que coexistiram simultaneamente. A obra não foi construída como uma imagem final previamente definida, mas como um campo aberto de experimentação, onde cada decisão gerava novas perguntas.

 

A parte mais contemporânea da obra ficou sendo a linha verde pixelada. Os dois ícones verdes (o dinossauro e o cacto) são referências ao modo offline do navegador Chrome. Conectando assim o mito de Gênesis com um problema contemporâneo: o ser humano moderno perdeu a conexão. E a frase final reforça isso: “You are offline.”

Ou seja: mesmo com todo conhecimento, talvez ainda estejamos desconectados do essencial (sim, esse é um aviso existencial).

 

Aqui nessa obra a serpente não aparece de forma explícita, mas ela está presente na linha verde que atravessa a tela. A ausência física da serpente, na minha intenção, significa que a tentação já está dentro do ser humano.

 

Essa peça tem uma medida de 150x100 cm e foi selada com verniz brilhante, e, mais do que uma pintura, ela se configura como um registro material de um processo de pensamento, de muita paciência e principalmente de uma evolução pessoal, reconhecido não só por mim, mas também por quem me cerca.