Agosto de 2026.
A obra “BUT MOMMA, I FELL IN LOVE AGAIN” tem como elemento central o conflito entre aquilo que é sentido e aquilo que pode ser dito ou vivido. O nome dela vem como inspiração de uma frase contida na canção “Cupid’s Chokehold” do grupo Gym Class Heroes (música muito ouvida na minha adolescência, e inclusive, até hoje).
A obra representa um sentimento amoroso vivido recentemente que nasceu em um ambiente cotidiano, aparentemente banal, mas que progressivamente passou a ocupar um espaço enorme dentro de mim. Mas é uma espécie de amor contido: um sentimento que não necessariamente encontra correspondência ou possibilidade de realização.
E os dois anjos azuis funcionam como uma representação desse sentimento.
Porém, existe uma ironia nisso: o cupido normalmente representa o amor como algo leve, no entanto, aqui ele está inserido em um campo visual marcado por um desenho de patente de uma arma de fogo ao fundo, feito em stencil.
A obra não trata o amor apenas como algo bonito, o trata como algo perigoso. Não necessariamente porque o outro lado seja perigoso, mas porque na minha opinião, amar coloca o indivíduo em uma posição de vulnerabilidade.
Nessa peça, acabei utilizando o papelão, que está associado a embalagem e a descarte, como suporte para falar de desejo e vulnerabilidade. Transformando um material ordinário em algo carregado de memória e significado.
O bordado em ponto cruz é uma técnica historicamente associada à repetição e ao trabalho manual, e se funde com minhas memórias e raízes de infância, de quando via minhas avós bordando na sala de casa. E aqui ele atravessa praticamente toda a composição e funciona como uma espécie de rede emocional. É como costurar o sentimento sobre o papelão.
A oposição cromática na peça de azul x vermelho funciona como se fosse a calma x paixão, distância x desejo. E as escritas funcionam como uma espécie de diário visual. Elas ficam quase que escondidas por baixo do bordado (propositalmente difíceis de ler), como pensamentos que estão presentes, mas não são completamente acessíveis. Isso é coerente com a própria experiência de guardar um sentimento.
À esquerda, um trecho do livro “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry:
“Ceux qui croisent notre chemin ne partent pas seuls. Ils laissent un peu d'eux-mêmes et emportent un peu de nous avec eux.”
À direita, um pequeno trecho em inglês de uma carta pessoal escrita para quem eu me apaixonei, e que nunca cheguei a entregar.
No fim, a obra fala menos sobre “estar apaixonado por alguém” e mais sobre o que acontece com a nossa própria identidade quando começamos a desejar alguém que talvez não possamos ter.
E, nesse sentido, o papelão foi perfeito: peguei algo destinado a transportar coisas e que seria descartado e o transformei em algo onde um sentimento foi transportado, sentido, vivido, materializado, e finalmente, deixado ir.
